Coerência, Futuro e Respeito: o que a Greve da Educação Revela sobre a Gestão em Curitiba

8 de abril de 2026

Loading

Prefeitura de Curitiba, Secretaria de Educação e, principalmente, Prefeito Eduardo Pimentel,

Quando um governo municipal trata a Educação Infantil e os anos iniciais do Ensino Fundamental como mero item de planilha, em vez de eixo estratégico de futuro, não está apenas cometendo um erro administrativo: está minando silenciosamente as bases éticas, cognitivas e emocionais de uma geração inteira de curitibanos. É nesse estágio da vida que se formam o caráter, a capacidade de convivência, a disciplina, o senso de justiça e o olhar crítico que definem o cidadão que essa cidade terá daqui a 10, 20 ou 30 anos. Ignorar isso é escolher, deliberadamente, uma Curitiba mais frágil, desigual e vulnerável.

O discurso oficial insiste na imagem de uma cidade moderna, inovadora, inteligente, conectada. Mas nenhuma cidade é verdadeiramente inovadora se trata seus educadores como custo descartável e não como investimento estruturante. Não há “cidade inteligente” sustentada sobre escolas desvalorizadas, professores adoecidos e profissionais da educação infantil planejando a própria sobrevivência no fim do mês. Entre o slogan e a realidade, a incoerência fala mais alto que qualquer peça publicitária.

A progressão na carreira docente, do jeito que vem sendo conduzida, se aproxima mais de um sorteio de poucos “premiados” do que de uma política séria de valorização. Há educadores que dedicam anos e horas além da carga contratual, lidando diariamente com crianças e estudantes em situações muitas vezes adversas, sem infraestrutura adequada, sem apoio pedagógico à altura e sem uma visão estratégica consistente por parte da gestão maior, que é o Prefeito. Ao limitar vagas de crescimento e transformar essa progressão em uma corrida de obstáculos para poucos, o recado é simples e cruel: “o seu esforço não determina o seu reconhecimento”.

O discurso bonito já não basta. Se a Prefeitura, de fato, tivesse compromisso com a valorização dos profissionais que estão na base da formação das crianças, não teríamos chegado a uma greve. Greve não nasce do impulso. Greve é o último instrumento de quem já tentou diálogo, mesa de negociação, apresentação de dados, de projeções, de possibilidades, e recebeu de volta apenas promessas vagas, sem cronograma e sem impacto concreto na vida de quem está na ponta.

Basta olhar o que o próprio SISMUC tem apresentado. As pautas que motivam a paralisação desta quarta-feira — ampliação das vagas para crescimento na carreira, universalização do auxílio-alimentação e fim do desconto de 14% nas aposentadorias — não surgiram da noite para o dia. São reivindicações antigas, reiteradas em 2025, debatidas em diferentes momentos inclusive quando Eduardo Pimentel ainda era vice-prefeito. A categoria aprovou indicativo de greve no ano passado não por impaciência, mas pela ausência sistemática de respostas efetivas.

Ao longo dos últimos anos, a Prefeitura insiste no discurso de que “o diálogo está aberto”. Porém, diálogo sem decisão é apenas um ritual burocrático, uma reunião para registro em ata. Canal aberto sem resultado concreto é só uma forma de ganhar tempo e tentar desmobilizar a indignação. Não se pode chamar de “escuta” aquilo que não gera compromisso escrito, números apresentados, etapas definidas e prazos minimamente respeitáveis.

O cenário torna-se ainda mais revelador quando se observa a escolha de prioridades. Enquanto mais de 25 mil servidores públicos seguem aguardando respostas a pautas históricas, a gestão municipal envia um projeto de lei para instituir uma Gratificação de Produtividade Tributária destinada a apenas 108 servidores ligados ao núcleo que controla o caixa da cidade, com impacto previsto de R$ 27,6 milhões até 2028. Ninguém aqui está afirmando que a área fazendária não seja importante; o problema é o contraste gritante. Para alguns, gratificação robusta e bem calculada. Para a maioria, especialmente para educação, saúde, assistência social e fiscalização, a retórica da “impossibilidade” ou do “limite prudencial”.

Essa escolha orçamentária não é neutra. Ela define, com clareza, quem a atual gestão considera estratégico e quem considera substituível. Ao priorizar uma gratificação tão concentrada, enquanto a universalização do auxílio-alimentação poderia alcançar cerca de 8 mil servidores da base, a Prefeitura deixa explícito que o mérito, a entrega diária e o impacto social de quem está na linha de frente não pesam tanto quanto o controle tecnocrático do caixa. É uma decisão política, não uma fatalidade contábil.

A justificativa recorrente do “limite prudencial” é apresentada como se fosse um muro intransponível, mas sem a devida transparência. Se a Administração diz que não é falta de orçamento, mas “impossibilidade legal” de atender as demandas, por que não coloca sobre a mesa os cálculos, os cenários, os impactos graduais, as alternativas de implementação progressiva? Sem esses dados, o apelo ao limite prudencial soa menos como responsabilidade fiscal e mais como escudo retórico para manter intocadas determinadas escolhas de prioridade. A ausência de números concretos alimenta a percepção — cada vez mais evidente — de que falta vontade política, não recurso.

Há também um ponto que não pode ser varrido para debaixo do tapete: as promessas de campanha de Eduardo Pimentel. Em nenhum momento ele condicionou o cumprimento de seus compromissos com o funcionalismo ao “último ano de mandato” ou à conveniência do calendário eleitoral. A Educação e a valorização de servidores foram usadas como bandeiras para conquistar votos e confiança. Quando o mandato avança sem que essas promessas ganhem forma concreta, o que se instala é uma sensação de estelionato moral com aqueles que confiaram na palavra empenhada.

Educação Infantil e anos iniciais não são apenas mais uma etapa do sistema. É ali que podemos prevenir, de modo efetivo, a evasão escolar futura, o aprofundamento das desigualdades, o aliciamento de jovens pelo crime, o adoecimento emocional em massa. Cada sala de aula em que o professor está desmotivado, esgotado ou sem perspectivas é uma oportunidade perdida de construir uma Curitiba mais segura, mais justa e mais desenvolvida. Valorizar o educador não é agrado; é estratégia de segurança pública, de desenvolvimento econômico, de equilíbrio social.

Quando a Prefeitura permite chegar a uma greve dessa dimensão, não é a população que está “sendo traída” pelos servidores. A população está sendo traída por uma gestão que protela decisões e trata reivindicações estruturais como se fossem apenas ruído de fundo. A paralisação desta quarta-feira, com concentração marcada na Praça 19 de Dezembro, não é um capricho; é um grito coletivo de uma categoria que cansou de ouvir que “agora não dá”, enquanto assiste recursos fluírem com agilidade para nichos específicos.

A saída desse impasse não virá de discursos prontos, nem de notas oficiais dizendo que “respeitam os servidores”. Respeito, em política pública, se mede em orçamento, em vagas de progressão, em auxílio que chega no contracheque, em fim de descontos injustos nas aposentadorias. Respeito se mede na capacidade de colocar em prática, no meio do mandato, aquilo que se prometeu na campanha — e não em anúncios tímidos às vésperas do próximo processo eleitoral.

É hora de a gestão municipal de Curitiba assumir, com coragem, que:

É possível e necessário ampliar de forma consistente os números de vagas para Crescimento Vertical, de modo que o desenvolvimento profissional do servidor não seja exceção, mas caminho natural para quem estuda, se atualiza e entrega resultado.

É urgente universalizar o auxílio-alimentação, começando justamente pelas áreas que seguram a cidade de pé: educação, saúde, assistência social e fiscalização.

É justo enfrentar o tema do desconto de 14% nas aposentadorias, que penaliza quem já cumpriu sua jornada de contribuição e agora assiste, perplexo, a manutenção de privilégios em outras áreas da máquina pública.

Enquanto essas pautas continuarem tratadas como pendências secundárias, a palavra “prioridade” perderá completamente o sentido nos discursos oficiais. Não basta repetir que se “reconhece a importância” dos educadores; é preciso inscrever esse reconhecimento no orçamento, na carreira, nas condições de trabalho.

Curitiba gosta de se ver como referência nacional. Mas não há referência verdadeira em uma cidade que aceita naturalizar a desvalorização de quem cuida de suas crianças desde a creche, que adapta conteúdo para realidades complexas, que abraça alunos em sofrimento, que compensa com esforço pessoal as lacunas deixadas pelo poder público.

Prefeito Eduardo Pimentel, Secretaria de Educação, gestores da administração: o tempo da retórica está se esgotando. A cada dia sem proposta concreta, a cada reunião sem número, a cada promessa sem cronograma, o que se corrói não é apenas a paciência dos servidores, mas a confiança da sociedade na palavra de seus governantes. Ainda há espaço para realinhar a rota, respeitar quem está na ponta e transformar a atual crise em ponto de virada. Mas isso exige algo simples e raro: coerência entre o que se diz e o que se faz.

A cidade que Curitiba vai ser no futuro está sendo decidida agora, nas escolhas que a gestão faz sobre quem valorizar e quem deixar para depois. E a história costuma ser dura com quem subestimou o poder transformador — ou destrutivo — das decisões tomadas, ou adiadas, no campo da educação. 

Assinado:


Ney Ferreira – webpolitico.com.br

Post anterior

Coerência ou sobrevivência, o dilema que expõe a política brasileira

Vá paraTopo

Não perca