A HIPOCRISIA DA “ÉTICA” NO FUTEBOL BRASILEIRO

11 de maio de 2026

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É curioso observar como alguns clubes e parte de suas torcidas gostam de se posicionar como referências absolutas de ética, governança corporativa e profissionalismo no futebol brasileiro, mas ao mesmo tempo adotam posturas extremamente contraditórias quando determinados interesses políticos, econômicos ou esportivos entram em jogo. Porque falar de ética é muito fácil quando o discurso favorece a própria narrativa. Difícil é manter coerência quando a situação exige equilíbrio, respeito institucional e imparcialidade.

No futebol moderno, muita gente passou a acreditar que faturamento alto automaticamente transforma qualquer clube em modelo moral. Só que governança corporativa séria não se mede apenas por receitas bilionárias, contratos milionários e capacidade de investimento. Governança verdadeira envolve coerência institucional, transparência nas relações comerciais, responsabilidade ética, prestação de contas e respeito às regras do próprio mercado que o futebol escolheu adotar.

E um dos exemplos mais emblemáticos dessa contradição apareceu justamente no debate envolvendo a venda da SAF do Vasco. Foi impressionante ver determinados setores tentando levantar discursos de “preocupação ética” e questionamentos políticos sobre uma operação legalmente estruturada, aprovada dentro dos mecanismos previstos e sustentada juridicamente. De repente, parecia que havia uma necessidade desesperada de interferir, pressionar ou criar um ambiente de desconfiança sobre uma negociação privada que seguia caminhos legais e institucionais claros.

A grande pergunta que fica é simples. Desde quando alguns clubes se transformaram em fiscais morais das decisões empresariais dos rivais? Porque quando o assunto envolve contratos milionários, bancos, investidores, patrocinadores controversos ou relações políticas próximas aos próprios interesses, quase nunca existe o mesmo nível de indignação pública, cobrança ética ou preocupação institucional. Mas quando um adversário encontra uma possibilidade concreta de reconstrução financeira e competitiva, surgem discursos carregados de “preocupação ética”, “responsabilidade” e “risco ao futebol”.

Isso revela uma contradição enorme dentro do ambiente esportivo brasileiro. Muitas vezes o debate sobre ética parece menos preocupado com princípios e mais focado em conveniência estratégica. Ética seletiva deixa de ser ética e passa a ser instrumento político. Porque transparência e governança precisam valer para todos os lados, não apenas quando interessa enfraquecer concorrentes esportivos.

O caso da SAF do Vasco escancarou justamente isso. Um clube historicamente destruído por décadas de má administração encontrou um caminho empresarial legal para tentar se reconstruir dentro das regras modernas do futebol mundial. E ao invés de existir respeito institucional pela tentativa de recuperação, surgiram movimentos de resistência, narrativas alarmistas e discursos travestidos de moralidade. Como se fosse aceitável determinados grupos tentarem interferir indiretamente no processo de reorganização de um rival histórico.

O mais curioso é que o futebol brasileiro convive há décadas com relações obscuras entre clubes, patrocinadores, bancos, agentes políticos, investidores e estruturas de poder. Só que muitos desses questionamentos desaparecem completamente quando o dinheiro fortalece os clubes considerados “intocáveis” pela mídia e pelo sistema esportivo dominante. A régua moral muda dependendo de quem está sendo beneficiado.

Isso leva a uma reflexão importante sobre o verdadeiro significado de governança corporativa no futebol. Governança não é apenas ter dinheiro em caixa e marketing forte. Governança também significa respeitar concorrência, aceitar que outros clubes busquem modelos legítimos de reconstrução e evitar transformar influência política e midiática em ferramenta de pressão sobre negociações privadas legalmente estabelecidas.

No fim, talvez o futebol brasileiro precise parar de romantizar tanto determinados modelos financeiros enquanto ignora as contradições éticas que existem nos bastidores. Porque uma instituição não se torna automaticamente exemplo moral apenas porque arrecada muito, vence campeonatos ou domina narrativas midiáticas. A verdadeira credibilidade nasce da coerência entre discurso e prática. E quando a ética aparece apenas como instrumento conveniente contra adversários, muita gente começa naturalmente a questionar se existe realmente preocupação moral ou apenas disputa por poder e influência dentro do futebol nacional.

Ney Ferreira
Um Vascaíno Visionário e Confiante
Professor da Disciplina Governança Corporativa e TI

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