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PARTE I
Quando o discurso muda de dono, vira hipocrisia
O debate sobre as terras raras escancarou mais uma contradição clássica da política brasileira. Quando Flávio Bolsonaro menciona a possibilidade de parceria internacional envolvendo recursos estratégicos, a reação imediata de setores do governo é de crítica, como se estivesse em jogo uma ameaça à soberania nacional.
Mas quando o próprio governo, através de Fernando Haddad e sob a liderança de Lula, admite discutir exatamente o mesmo tema como estratégia para reduzir tensões comerciais com os Estados Unidos, o discurso muda completamente.
O que antes era tratado como risco passa a ser chamado de oportunidade.
Isso não é debate técnico. É conveniência política.
A verdade é que as terras raras deixaram de ser apenas um ativo econômico e passaram a ser um instrumento de narrativa. Dependendo de quem fala, o mesmo assunto ganha rótulos diferentes. Se vem da oposição, é criticado. Se parte do governo, é defendido como estratégia inteligente.
Esse tipo de postura revela um padrão já conhecido. A coerência não está no conteúdo da proposta, mas em quem a apresenta. E isso fragiliza qualquer discussão séria sobre soberania, desenvolvimento e estratégia nacional.
No fundo, o que está em jogo não é apenas política externa ou economia. É disputa de espaço, de narrativa e, principalmente, de protagonismo.
E quando o debate deixa de ser sobre o país e passa a ser sobre quem pode falar, o eleitor percebe.
Percebe que a crítica não é sobre a ideia.
É sobre o autor da ideia.
E esse tipo de incoerência, ao invés de enfraquecer adversários, muitas vezes acaba fortalecendo exatamente quem se tenta atacar.
PARTE II
A discussão sobre terras raras no Brasil precisa sair do campo raso da disputa política e entrar no nível em que o mundo já está operando. Quando Flávio Bolsonaro levanta a possibilidade de uma parceria com os Estados Unidos, o que está em jogo não é apenas uma aproximação diplomática, mas uma leitura de cenário global.
Hoje, quem controla terras raras não controla apenas mineração. Controla tecnologia, defesa, energia e o futuro da indústria mundial.
A dependência global da China, que concentra entre 70% e 90% da produção e refino desses materiais, não é apenas econômica. É geopolítica. Países desenvolvidos já entenderam que essa dependência representa um risco estratégico direto.
Nesse contexto, o Brasil ocupa uma posição privilegiada, mas subutilizada. Com cerca de 23% das reservas mundiais, o país ainda participa com apenas uma fração mínima da produção global. Isso revela um problema claro: potencial sem estratégia vira oportunidade perdida.
É exatamente nesse ponto que a proposta de parceria ganha relevância.
PARTE III
Do potencial à soberania real
Uma cooperação com os Estados Unidos pode representar muito mais do que exportação de minério. Pode ser a porta de entrada para uma transformação estrutural da economia brasileira.
O acesso a tecnologia de refino, investimentos robustos e integração em cadeias globais de alto valor permitiria ao Brasil deixar de ser um simples fornecedor de matéria-prima e passar a atuar como protagonista industrial.
Terras raras estão presentes em praticamente tudo que define o século XXI. Carros elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, equipamentos militares, inteligência artificial. Não se trata de um setor isolado, mas da base de várias indústrias críticas.
Além disso, o Brasil já é um player relevante em minerais estratégicos como o nióbio, sendo um dos principais fornecedores globais. Isso mostra que existe capacidade instalada, mas falta escala e coordenação estratégica.
Ao propor esse tipo de aproximação, a visão não deveria ser reduzida a um debate ideológico. Trata-se de posicionamento global.
PARTE IV
O risco de repetir erros históricos
O Brasil já cometeu esse erro antes. Exportar riqueza bruta e importar tecnologia cara. Foi assim com diversos ciclos econômicos.
Repetir esse modelo com terras raras seria desperdiçar uma das maiores oportunidades estratégicas das próximas décadas.
A crítica política pode até gerar engajamento momentâneo, mas não constrói futuro. O que constrói futuro é planejamento, visão de longo prazo e capacidade de negociar com inteligência.
Seja qual for o governo ou o grupo político, a discussão precisa ser elevada.
Porque no cenário internacional, ninguém está discutindo narrativa. Estão disputando domínio tecnológico e segurança econômica.
E o Brasil precisa decidir se quer assistir esse movimento ou participar dele de forma ativa.
Assinado por Ney Ferreira
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