SERGIO MORO NÃO FUGIU. ELE ESCOLHEU A HORA DE LUTAR.

10 de agosto de 2026

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Existe uma diferença enorme entre fugir de uma batalha e escolher estrategicamente quais batalhas vale a pena enfrentar. E talvez seja exatamente essa diferença que parte da mídia e dos adversários de Sergio Moro não tenha conseguido compreender. A narrativa de que Moro “fugiu” do debate é fácil, conveniente e politicamente interessante para quem precisava transformar sua ausência em uma suposta demonstração de fraqueza. Mas eleição não se ganha apenas com narrativa, manchete ou provocação. Eleição se ganha com leitura de cenário, percepção do eleitor, cálculo político e capacidade de entender quando falar e, principalmente, quando não entrar no jogo que os adversários prepararam.

Moro não precisava entrar naquela arena simplesmente porque seus adversários queriam que ele entrasse. Essa é a questão que muitos parecem não compreender. Quem está atrás nas pesquisas precisa aproveitar cada oportunidade para atacar quem está na frente, criar desgaste, provocar uma reação e tentar diminuir a distância. Quem está em uma posição competitiva precisa pensar de maneira diferente. Precisa avaliar o que pode ganhar, o que pode perder e qual será o efeito daquela exposição sobre o eleitor. Se a arena estava preparada para transformar o debate em uma sequência de ataques pessoais contra o candidato que aparece como protagonista da disputa, Moro pode simplesmente ter entendido que aquele não era o momento adequado para entregar aos adversários exatamente o palco que eles desejavam.

E o resultado foi, no mínimo, curioso. Os dois candidatos que poderiam utilizar o debate para concentrar seus ataques contra Moro acabaram disputando espaço entre eles. Requião Filho e Sandro Alex trocaram ataques, provocações e críticas, enquanto o candidato ausente continuou sendo um dos principais assuntos políticos depois do encerramento do debate. E isso deveria provocar uma reflexão muito simples: se a intenção era demonstrar que Moro estava enfraquecido, por que sua ausência continuou sendo tão discutida? Se ele realmente havia perdido relevância, por que todos continuaram falando justamente dele? Talvez porque, quando os adversários passam boa parte do tempo tentando explicar por que o líder não está no palco, acabam confirmando exatamente o contrário daquilo que pretendiam demonstrar.

É preciso entender também o comportamento específico do eleitor paranaense. O Paraná possui uma identidade política muito particular e uma rejeição significativa ao PT e ao lulismo. Isso não pode ser tratado como um detalhe secundário em uma eleição que acontecerá simultaneamente à disputa presidencial. A eleição para o Governo do Paraná não acontecerá em uma bolha. O eleitor estará escolhendo governador, deputado, senador e presidente no mesmo processo eleitoral, e suas convicções nacionais inevitavelmente poderão influenciar suas decisões estaduais. É perfeitamente possível imaginar um cenário em que uma parcela significativa do eleitorado paranaense escolha Sergio Moro para o Governo do Estado e Flávio Bolsonaro para a Presidência. Não estou dizendo que isso esteja decidido, nem que seja inevitável. Estou dizendo que existe uma lógica eleitoral nessa combinação que não pode ser simplesmente ignorada por quem pretende interpretar corretamente o comportamento político do Paraná.

E é justamente nesse ponto que alguns adversários podem estar cometendo um erro estratégico. Se a eleição for transformada em uma campanha permanente contra Bolsonaro e contra Moro, será preciso perguntar se esse discurso realmente conversa com o eleitor que esses candidatos precisam conquistar. O Paraná não vota apenas em partidos, alianças e estruturas tradicionais. Existe um componente ideológico, emocional e identitário muito forte no voto paranaense. Existe rejeição ao PT, existe resistência ao lulismo e existe uma parcela expressiva do eleitorado que deseja uma alternativa ao modelo político que domina o debate nacional. Ignorar isso pode ser um erro grave. O eleitor não necessariamente aceitará a lógica de que votar contra Moro significa automaticamente votar em uma alternativa melhor. Ele pode simplesmente interpretar os ataques como mais uma tentativa da velha política de derrubar um adversário que conseguiu ocupar uma posição competitiva.

E aqui está a parte mais interessante da estratégia de Moro. Ele não precisava aceitar todas as provocações. Não precisava entrar em uma arena apenas porque seus adversários estavam preparados para atacá-lo. Não precisava transformar um debate em uma guerra pessoal para provar que possui capacidade eleitoral. Uma eleição dura meses. Um debate dura algumas horas. Uma eleição envolve centenas de municípios, milhares de comunidades e milhões de eleitores. O debate pode produzir manchetes durante dois ou três dias, mas a decisão do eleitor será construída ao longo de toda a campanha. Portanto, talvez seja muito mais importante saber preservar capital político do que simplesmente vencer uma batalha televisiva.

A velha política, muitas vezes, confunde exposição com força. Acredita que quem fala mais alto, provoca mais e ataca mais está necessariamente vencendo. Não é assim. Às vezes, quem entra em todas as brigas perde energia, perde foco e acaba permitindo que os adversários determinem sua agenda. Um candidato inteligente não permite que o adversário escolha todas as suas batalhas. Ele escolhe onde quer estar, quando quer falar e qual mensagem quer deixar para o eleitor. É exatamente por isso que não vejo a ausência de Moro simplesmente como uma fuga. Vejo como uma decisão política que pode ou não se mostrar acertada no decorrer da campanha, mas que possui uma lógica estratégica perfeitamente compreensível.

E existe uma armadilha ainda maior para os adversários. Quando dois ou mais candidatos concentram sua energia em atacar aquele que aparece como principal adversário, acabam transformando esse candidato no centro da eleição. É uma velha regra da política: ninguém gasta tanta energia tentando destruir aquilo que considera irrelevante. Se Moro fosse realmente irrelevante, bastaria ignorá-lo. Se estivesse realmente enfraquecido, bastaria apresentar propostas e disputar o eleitor diretamente. Mas quando o discurso se transforma em “precisamos atacar Moro”, “precisamos explicar a ausência de Moro”, “Moro está com medo”, “Moro fugiu”, a própria narrativa acaba revelando que ele continua sendo uma peça central do tabuleiro.

Por isso, considero equivocada essa tentativa de transformar a ausência de Moro em uma derrota antecipada. Uma eleição não é vencida em um debate e também não é perdida por não participar de uma determinada arena. O que importa é o resultado acumulado da estratégia. Moro precisa continuar apresentando propostas, conversando com o eleitor, mostrando sua visão para o Paraná e, principalmente, evitando que seus adversários consigam definir completamente sua imagem perante a população. Se fizer isso com inteligência, poderá chegar às fases decisivas da eleição com condições muito competitivas.

E há outro ponto que precisa ser dito com clareza. A chamada velha política está acostumada a uma lógica em que alianças, estruturas partidárias, cargos, grupos regionais e máquinas políticas exercem enorme influência sobre as eleições. Quando aparece um candidato que tenta se apresentar como uma alternativa a essa engrenagem, a reação natural do sistema é tentar enquadrá-lo. Primeiro tentam isolá-lo. Depois tentam desqualificá-lo. Depois tentam transformá-lo em problema. E, quando percebem que isso não funciona, passam a concentrar ataques. O eleitor, entretanto, está cada vez mais atento a esse tipo de movimento. Ele percebe quando um debate deixa de ser uma discussão sobre propostas e passa a ser uma tentativa coletiva de desgastar determinado candidato.

Foi exatamente por isso que o episódio da Band pode ter produzido um efeito diferente daquele imaginado pelos adversários. Em vez de Moro ser encurralado em uma arena de ataques, os próprios adversários acabaram mostrando suas diferenças e suas fragilidades. E Moro, mesmo ausente, permaneceu presente na discussão. Isso não significa que ele esteja eleito. Não significa que a eleição esteja definida. Não significa que os adversários não tenham chances. Significa apenas que a interpretação de “Moro fugiu” é muito mais simplista do que a realidade política exige.

Eu prefiro uma leitura mais estratégica: Moro escolheu não jogar uma partida quando o adversário queria definir as regras, o campo e o tipo de confronto. Isso não é necessariamente covardia. Pode ser prudência. Pode ser cálculo. Pode ser estratégia. E somente o resultado da eleição poderá dizer se essa escolha foi correta.

Agora, os adversários terão que fazer algo muito mais difícil do que atacar Moro em um debate: terão que convencer o eleitor paranaense. Terão que apresentar propostas. Terão que explicar o que pretendem fazer com o Estado. Terão que mostrar por que representam uma mudança real e não apenas uma troca de nomes dentro da mesma estrutura política. Terão que enfrentar a avaliação do eleitor sobre o PT, sobre Lula, sobre Bolsonaro, sobre a atual estrutura de poder do Paraná e sobre o futuro que deseja para o Estado.

Porque o eleitor paranaense não é figurante de debate eleitoral. Ele é o protagonista. Pode ouvir os ataques, assistir às provocações, acompanhar as manchetes e, no silêncio da cabine de votação, tomar uma decisão completamente diferente daquela que os comentaristas políticos imaginaram. É justamente por isso que nenhuma eleição deve ser tratada como resultado antecipado.

No final, debate termina, ataque termina, manchete termina, provocação termina e narrativa termina. O voto permanece. E talvez a maior ironia de toda essa história seja exatamente esta: enquanto alguns passaram a noite tentando explicar por que Sergio Moro não estava no debate, continuaram colocando o próprio Moro no centro da discussão. Ele não precisou estar no palco para ser lembrado. Não precisou responder a todas as provocações para ser citado. Não precisou entrar na rinha para continuar sendo um dos nomes mais discutidos da eleição.

Portanto, eu não compraria a narrativa de que Sergio Moro fugiu. Eu diria algo muito mais simples: Sergio Moro escolheu a batalha que queria enfrentar e deixou os adversários brigarem no terreno que eles mesmos escolheram. Se essa estratégia será suficiente para levá-lo à vitória, somente as urnas poderão responder. Mas uma coisa já ficou evidente: quem acredita que uma ausência em um debate significa ausência na eleição talvez esteja confundindo televisão com política.

A eleição verdadeira ainda está começando. E nela não haverá mediador, não haverá tempo regulamentar para resposta e não haverá aplauso de plateia. Haverá apenas o eleitor, sua percepção, sua memória, suas convicções e seu voto. E é exatamente aí que a estratégia de cada candidato será colocada à prova.

Moro não fugiu.

Moro fez uma escolha.

E agora serão os eleitores do Paraná que dirão se essa escolha foi inteligente.

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