NENHUMA TOGA DEVE ESTAR ACIMA DA LEI

3 de setembro de 2026

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O Brasil chegou a um ponto em que autoridade máxima do Judiciário aparece envolvida, ponto a ponto, num relatório de duzentas e dezoito páginas da Polícia Federal, e o país segue sendo instruído a esperar, a ter paciência, a aguardar o momento certo de separar o joio do trigo. Só que joio não se separa quando quem deveria fazer a colheita é o próprio joio plantado no topo da estrutura. Cinquenta e duas mensagens trocadas às escondidas entre um ministro do Supremo e o dono de um banco que afundava bilhões de investidores não são detalhe de rodapé, são prova de que o poder que deveria julgar excessos se acostumou a protegê-los, contanto que o excesso viesse com endereço certo e conta bancária generosa.

O que se descreve não é episódio isolado, é retrato de um sistema inteiro. Um banqueiro em colapso financeiro que ainda assim consegue bancar assessoria jurídica de luxo, fechar contrato milionário com escritório ligado à família de um ministro, oferecer cartão de crédito de trezentos mil reais para os filhos dele, e depois, quando o banco desmorona de vez, tentar salvar a própria pele completando dívidas com avião e helicóptero. Isso tem nome no Código Penal, chama-se corrupção passiva, tráfico de influência, e o fato de vir embrulhado em linguagem de suposta cautela institucional não muda a natureza do que é.

E o padrão se repete de cima a baixo. O diretor-geral da Polícia Federal jantando uísque e charuto em Londres com o mesmo empresário que deveria estar sob investigação, e depois passando meses fingindo que não havia nada para apurar contra quem o recebeu. Um ministro recebendo relatório equivalente sobre um colega e escolhendo o silêncio em vez da ação. Fotos e mensagens vazando aos poucos, revelando proximidade indevida entre autoridades e advogados de interesse direto no caso. Isso não é Judiciário funcionando com excesso de zelo, é estrutura de poder cuidando de si mesma, blindando quem deveria estar sendo investigado, transformando prerrogativa em escudo permanente contra qualquer prestação de contas.

Chamar isso de ditadura de toga não é exagero retórico, é descrição do que acontece quando um punhado de togas concentra poder de investigar, processar, julgar e calar adversário político sem precisar responder a ninguém, e ainda assim se recusa a aplicar em si mesma a exigência mínima de transparência que impõe ao resto do país. O discurso de que é preciso esperar a hora certa para agir só convence enquanto ninguém pergunta a hora certa segundo quem, a favor de quem, protegendo o quê. Enquanto isso, a mesma estrutura que hesita diante de prova documentada contra os próprios pares não hesitou nem um segundo para agir com máximo rigor contra quem estava do lado oposto do tabuleiro político.

A hora da verdade não é retórica de fim de artigo, é urgência concreta. Um país não sustenta democracia de verdade quando o topo do Judiciário decide sozinho quando a lei se aplica e quando ela pode esperar. Ou existe separação de poderes com responsabilidade real para todos, inclusive para quem veste toga, ou o que resta é a aparência de instituição republicana operando na prática como poder pessoal blindado. Derrubar essa mentira não depende de esperar decisão de quem se beneficia do silêncio, depende de o país inteiro parar de aceitar que investigar os próprios pares seja tratado como favor, e passar a exigir que seja tratado como obrigação.

 

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