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A sucessão estadual de 2026 está revelando muito mais do que uma disputa entre candidatos. Ela está colocando em debate um modelo de poder que há décadas influencia os rumos da política paranaense. A cada nova articulação anunciada, cresce entre parte do eleitorado a percepção de que, apesar das mudanças de partidos, discursos e cargos, os protagonistas continuam pertencendo ao mesmo grupo político que se reorganiza a cada eleição para preservar sua influência.
Não se trata de questionar a trajetória ou a capacidade administrativa de determinadas lideranças, mas de analisar um fenômeno que se repete há muitos anos: quando um deixa o governo, outro assume; quando um não disputa uma eleição, passa a integrar a administração como secretário; quando não ocupa um cargo no Executivo, permanece influente em outra posição estratégica. O resultado é a sensação de continuidade de um mesmo círculo de poder, independentemente do partido que esteja formalmente no comando.
Os acontecimentos mais recentes reforçaram esse debate. Ratinho Junior passou boa parte de seu segundo mandato sendo apresentado como uma das principais apostas nacionais da direita para disputar a Presidência da República. O projeto era tratado por aliados como natural diante de seus índices de aprovação. Em seguida, essa possibilidade foi abandonada. Depois, também não se confirmou uma candidatura ao Senado, alternativa que muitos avaliavam como praticamente certa. As decisões foram anunciadas pelo próprio governador, mas continuam alimentando interpretações e questionamentos políticos sobre as razões que levaram à mudança de estratégia.
Ao mesmo tempo, a sucessão dentro do grupo governista também sofreu alterações importantes. Durante anos, Guto Silva foi apontado por analistas e lideranças como um dos principais nomes da nova geração política ligada ao governo e era frequentemente lembrado como possível sucessor de Ratinho Junior. No entanto, a definição caminhou em outra direção, com Sandro Alex assumindo o protagonismo da disputa. Logo depois veio outra reviravolta. Rafael Greca, que em diferentes momentos havia afirmado publicamente que não seria candidato a vice de ninguém, passou a integrar a chapa justamente nessa condição. Em seguida, novas movimentações envolvendo Álvaro Dias reorganizaram também a disputa pelo Senado. Observadas em conjunto, essas decisões fortaleceram uma leitura que circula entre analistas e eleitores: quando a preservação de um projeto político se torna prioridade, posições que antes pareciam definitivas podem ser revistas em questão de dias.
É justamente nesse ponto que cresce a principal provocação feita por parte do eleitorado. O objetivo dessas articulações é construir o melhor projeto para o Paraná ou garantir que o mesmo grupo continue ocupando os principais espaços de poder? Essa pergunta passou a ganhar força porque muitos eleitores observam que, independentemente das mudanças de cargos e das novas alianças, os protagonistas continuam sendo, em grande parte, os mesmos que dominam a política estadual há décadas. A impressão transmitida é a de que muda o desenho da chapa, mas a estrutura permanece praticamente intacta.
Enquanto isso, Sergio Moro ocupa um espaço político completamente diferente. Sua candidatura passou a ser identificada por muitos apoiadores como a principal alternativa de ruptura em relação ao modelo tradicional de sucessão política no Paraná. Independentemente das opiniões favoráveis ou contrárias à sua trajetória, Moro não construiu sua carreira dentro das tradicionais estruturas partidárias do Estado, e esse fator acabou se transformando em um dos principais elementos de sua narrativa eleitoral. Quanto mais os grupos tradicionais ampliam alianças e reorganizam suas lideranças, mais cresce, para uma parcela do eleitorado, a percepção de que existe um sistema tentando preservar sua continuidade. É justamente essa percepção que pode fortalecer o discurso de mudança apresentado por Moro.
Outro aspecto que merece atenção é o cenário das pesquisas eleitorais. Os levantamentos divulgados até o momento mostram Sergio Moro liderando a disputa, enquanto os demais candidatos ainda travam uma disputa intensa pelas posições seguintes. Isso significa que, antes mesmo de pensar em reduzir a vantagem do líder, alguns adversários ainda precisam consolidar espaço diante de concorrentes como Requião Filho. Essa realidade torna a eleição ainda mais complexa e demonstra que a reorganização das alianças tradicionais, por si só, não garante vantagem eleitoral.
Talvez a maior mudança em relação às eleições anteriores esteja no comportamento do eleitor. O cidadão passou a comparar discursos com atitudes, observar a coerência das lideranças e questionar mudanças repentinas de posicionamento. Declarações consideradas definitivas acabam sendo confrontadas com decisões posteriores, e isso inevitavelmente produz desgaste político. O eleitor pergunta por que determinados projetos foram abandonados, por que alianças antes consideradas improváveis passaram a acontecer e por que tantas mudanças ocorreram justamente no momento em que o grupo político precisou reorganizar sua estratégia eleitoral.
Esse conjunto de fatores faz com que a eleição de 2026 seja vista por muitos como um possível marco na história política do Paraná. Mais do que escolher um novo governador, o eleitor poderá decidir entre dois modelos distintos. De um lado, a continuidade de uma estrutura política consolidada ao longo de décadas. De outro, a possibilidade de iniciar um novo ciclo representado por uma candidatura que se apresenta como alternativa às tradicionais oligarquias políticas do Estado.
Naturalmente, somente as urnas poderão confirmar qual caminho será escolhido pela população. Pesquisas indicam tendências, mas não substituem o voto. Ainda assim, o cenário atual demonstra que existe um debate cada vez mais intenso sobre renovação, alternância de poder e concentração de influência política. A principal pergunta que acompanhará toda a campanha talvez seja também a mais simples:
o Paraná continuará sendo governado pelos mesmos grupos políticos reorganizados em novas alianças ou chegou o momento de iniciar um novo capítulo em sua história? A resposta, como sempre acontece em uma democracia, não será dada pelos partidos nem pelos acordos de bastidores. Será dada pelo eleitor.
Ney Ferreira
