PARANÁ 2026: A UNIÃO DOS MESMOS E O DESAFIO DE MORO

31 de julho de 2026

Loading


Talvez a maior ironia da eleição de 2026 no Paraná seja justamente esta: enquanto alguns grupos políticos se movimentam para construir uma grande união em nome da suposta renovação, o que o eleitor pode estar enxergando é exatamente o contrário. Pode estar enxergando a reunião de velhos personagens, velhas estruturas e velhas estratégias para preservar o controle político do Estado.

E é aí que a composição envolvendo Rafael Greca, Sandro Alex e Álvaro Dias precisa ser analisada com muita atenção.

Não porque qualquer um deles não tenha legitimidade para disputar uma eleição. Todos têm trajetória política e direito de apresentar seus projetos. O problema está na mensagem política que essa composição transmite.

Porque, para uma parcela do eleitorado, a fotografia pode parecer muito mais uma tentativa de preservação de poder do que uma proposta genuína de renovação.

E existe uma pergunta incômoda que precisa ser feita:

Essa união está sendo construída para apresentar um novo projeto para o Paraná ou para impedir que determinados grupos percam o controle da política paranaense?

Essa diferença é gigantesca.

E talvez seja justamente aí que Sérgio Moro encontre uma das maiores vantagens estratégicas desta eleição.

Moro não precisa convencer o eleitor de que representa uma ruptura com as estruturas tradicionais se seus adversários, ao se organizarem, acabarem oferecendo justamente a imagem de continuidade que ele pretende combater.

A política é também percepção.

E eleição não se ganha apenas com alianças partidárias. Ganha-se pela capacidade de convencer o eleitor de que determinada candidatura representa o futuro que ele deseja.

Hoje, os números disponíveis mostram uma vantagem importante de Sérgio Moro. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 27 de julho, Moro aparece com 39% no principal cenário estimulado, mais que o dobro de Requião Filho, que registra 18%, enquanto Rafael Greca aparece com 12%.

E isso muda completamente a leitura da eleição.

Porque a pergunta já não é apenas quem poderá chegar ao segundo turno.

A pergunta passa a ser quem terá condições de disputar a liderança contra Moro.

E aqui aparece uma situação extremamente curiosa.

Rafael Greca e Sandro Alex precisam, antes de qualquer coisa, resolver um problema que não está em segundo plano.

Requião Filho.

Os números mostram que Requião Filho permanece como o principal nome na perseguição a Moro. Na Quaest, ele aparece com 18%, enquanto Greca tem 12%.

Portanto, essa grande movimentação política dos grupos ligados ao governo precisa responder a uma questão objetiva:

Essa união realmente fortalece Greca e Sandro Alex ou apenas reorganiza os mesmos grupos enquanto Requião Filho continua ocupando o segundo espaço?

Porque existe o risco de uma estratégia concebida para impedir uma ruptura acabar produzindo exatamente o efeito contrário.

Quanto mais o eleitor perceber uma concentração de forças tradicionais em torno de uma mesma candidatura, maior pode ser a capacidade de Moro de apresentar a disputa como uma escolha entre continuidade e mudança.

Isso não significa que o crescimento de Moro seja automático.

Significa que o cenário pode favorecer a narrativa de ruptura que já aparece associada à sua candidatura.

E essa é uma diferença fundamental.

Porque Moro não precisa necessariamente vencer os grupos tradicionais no terreno em que eles são mais fortes.

Ele precisa convencer o eleitor de que esses grupos representam o passado e que ele representa uma alternativa.

Se conseguir fazer isso, cada nova aliança entre figuras tradicionais poderá ser apresentada como mais uma evidência de que o sistema está se fechando para preservar a própria estrutura.

E talvez seja justamente esse o maior problema estratégico de Ratinho Junior.

Ao organizar sua sucessão e concentrar forças em torno de determinados nomes, corre o risco de transmitir ao eleitor a impressão de que sua prioridade é garantir a continuidade do seu grupo político.

É uma interpretação política possível, não um fato comprovado sobre sua intenção pessoal.

Mas eleições são decididas também pela percepção que os eleitores constroem.

E a percepção pode ser devastadora.

Se o eleitor começar a enxergar que a grande preocupação do grupo governista não é discutir quem tem o melhor projeto para o Paraná, mas garantir quem continuará ocupando os espaços de poder, o discurso de Moro ganha combustível.

Porque aí a eleição deixa de ser apenas uma disputa entre candidatos.

Transforma-se em uma disputa entre modelos.

De um lado, a continuidade.

Do outro, a ruptura.

De um lado, os grupos que já conhecem os caminhos do poder.

Do outro, alguém que pode dizer ao eleitor:

Eu não fui escolhido por esse sistema.

E essa narrativa possui força eleitoral.

Não se pode ignorar também que o eleitor não vota necessariamente em quem tem mais prefeitos aliados, mais partidos ou mais estruturas.

O eleitor pode votar naquele que representa aquilo que ele deseja ver acontecendo.

É por isso que a transferência de votos nunca é uma ciência exata.

Um governador pode ter aprovação elevada e ainda assim enfrentar dificuldades para transferir essa aprovação ao seu sucessor.

A aprovação de uma administração é uma coisa.

A confiança em um candidato é outra.

E é exatamente aí que a sucessão de Ratinho Junior enfrenta seu maior desafio.

Não basta dizer que o governo é aprovado.

É necessário convencer o eleitor de que o candidato escolhido representa o futuro que ele deseja.

E isso não acontece automaticamente.

A pesquisa Quaest é particularmente reveladora nesse sentido: enquanto a avaliação do governo de Ratinho Junior permanece elevada, Moro aparece liderando a disputa pelo governo.

Esse contraste deveria provocar uma profunda reflexão dentro do grupo governista.

Se o governo possui aprovação e, ainda assim, o principal candidato oposicionista aparece tão à frente, então existe um problema de transferência política.

E talvez o erro seja justamente imaginar que popularidade administrativa pode ser transferida como se fosse patrimônio eleitoral.

Não pode.

Voto não é herança.

Voto não é propriedade partidária.

Voto não pertence a governador.

Voto não pertence a prefeito.

Voto não pertence a deputado.

Voto pertence ao eleitor.

E talvez essa seja a grande mensagem que 2026 esteja começando a produzir.

O eleitor paranaense pode estar cansado de descobrir que, depois de cada eleição, os mesmos grupos continuam determinando os rumos do poder.

Trocam-se os nomes.

Trocam-se os partidos.

Trocam-se os palanques.

Mas o sistema continua praticamente o mesmo.

E quando isso acontece, surge naturalmente um espaço para alguém se apresentar como ruptura.

É exatamente nesse espaço que Moro aparece.

Não é necessário concordar com tudo o que Sérgio Moro fez para reconhecer a vantagem estratégica que ele possui neste momento.

Ele já parte de um nível elevado de conhecimento público.

Possui uma marca política nacional consolidada.

Tem uma identidade eleitoral definida.

E, principalmente, pode explorar o contraste entre sua candidatura e as alianças formadas pelos grupos tradicionais.

Enquanto seus adversários precisam explicar por que estão juntos, Moro pode simplesmente perguntar ao eleitor:

Você quer mais do mesmo ou quer mudança?

Essa pergunta é simples.

Mas politicamente pode ser poderosíssima.

E é justamente por isso que a união entre Greca, Sandro Alex e outros setores não deveria ser analisada apenas como uma soma matemática de forças.

Política não é matemática.

Dois grupos políticos juntos não significam necessariamente o dobro de votos.

Às vezes, duas estruturas somadas produzem apenas uma imagem mais forte de continuidade.

E continuidade pode ser uma vantagem quando o eleitor está satisfeito.

Mas pode se transformar em desvantagem quando existe desejo de mudança.

Por isso, antes de comemorar qualquer grande composição, o grupo governista deveria olhar para a pesquisa e fazer uma pergunta muito simples:

Quem está realmente crescendo?

Quem está realmente mobilizando o eleitor?

Quem possui maior capacidade de representar uma alternativa?

E, principalmente:

Quem consegue transformar seus adversários em símbolo daquilo que o eleitor deseja abandonar?

Hoje, os dados disponíveis colocam Moro em posição bastante confortável na corrida. Na pesquisa do Instituto Veritá realizada em junho, por exemplo, ele registrava 52,7% das intenções no cenário estimulado, contra 17,5% de Requião Filho e 9,1% de Greca.

É evidente que pesquisa não é eleição.

Ainda há campanha.

Ainda haverá alianças.

Ainda haverá debates.

Ainda haverá ataques.

Ainda haverá fatos novos.

E muita coisa pode mudar.

Mas ignorar a vantagem atual de Moro seria um erro estratégico.

Assim como seria um erro imaginar que a simples união dos grupos tradicionais resolverá automaticamente o problema.

Talvez aconteça justamente o contrário.

Talvez quanto mais o sistema se una para impedir a ruptura, mais forte fique a percepção de que a ruptura é necessária.

Essa é a grande contradição de 2026.

Os grupos tradicionais podem estar tentando construir uma muralha contra Moro.

Mas podem acabar construindo, diante do eleitor, o próprio símbolo daquilo que Moro diz querer derrubar.

E existe uma pergunta que precisa permanecer no centro dessa eleição:

Quem está pensando primeiro no Paraná e quem está pensando primeiro na manutenção do poder?

Essa pergunta não deve ser respondida por propaganda.

Deve ser respondida pelas propostas.

Pelas escolhas.

Pelas alianças.

Pela coerência.

E, principalmente, pela capacidade de apresentar ao eleitor um projeto que esteja acima dos interesses de qualquer grupo político.

Porque o Paraná não pode ser reduzido a um tabuleiro onde algumas lideranças movimentam as peças e o eleitor simplesmente escolhe entre as opções que chegaram prontas até ele.

O eleitor precisa recuperar o protagonismo.

E talvez seja justamente isso que esteja acontecendo.

A eleição de 2026 pode acabar não sendo decidida apenas entre Moro, Requião Filho, Greca ou Sandro Alex.

Pode ser decidida entre duas ideias de Paraná.

Um Paraná administrado pela continuidade das estruturas que já conhecemos.

Ou um Paraná que decide experimentar uma ruptura.

Qual dessas ideias vencerá?

Ainda não sabemos.

Mas uma coisa já parece evidente:

A grande vantagem de Sérgio Moro neste momento não está apenas nos números das pesquisas.

Está na narrativa.

Enquanto seus adversários precisam construir uma justificativa para suas alianças, Moro pode explorar a imagem de que está enfrentando justamente aquilo que essas alianças representam.

E se essa percepção se consolidar, a tentativa de preservar as velhas estruturas poderá produzir um efeito eleitoral absolutamente inesperado:

fortalecer justamente aquele que pretende romper com elas.

É por isso que Greca, Sandro Alex e todo o grupo que está se formando ao redor dessa composição têm uma preocupação muito maior do que simplesmente enfrentar Sérgio Moro.

Primeiro precisam disputar o eleitorado que hoje está com Requião Filho.

Depois precisam convencer esse eleitor de que representam mudança.

E somente então poderão tentar enfrentar a vantagem que Moro construiu.

Porque, neste momento, a eleição não parece ser uma corrida de três ou quatro candidatos em igualdade de condições.

Os números mostram um líder destacado e uma disputa intensa pelo espaço seguinte.

E talvez a maior pergunta de todas seja justamente esta:

Será que a tentativa de preservar as mesmas estruturas políticas do Paraná conseguirá convencer o eleitor de que elas representam o futuro?

Ou será que o eleitor olhará para essa união e concluirá exatamente o contrário?

A resposta não pertence aos partidos.

Não pertence aos governadores.

Não pertence aos caciques.

Não pertence aos candidatos.

Pertence ao eleitor.

E em uma democracia, quando o eleitor decide que chegou a hora de mudar, nenhuma estrutura política é suficientemente grande para impedir a mudança.

O Paraná está diante de uma eleição que pode ser histórica.

Não necessariamente porque Sérgio Moro vencerá.

Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, a própria estrutura tradicional de poder está sendo obrigada a explicar ao eleitor por que precisa continuar no comando.

E essa talvez seja a pergunta mais perigosa que um sistema político pode enfrentar:

POR QUE VOCÊS PRECISAM CONTINUAR NO PODER?

A resposta será dada nas urnas.

Ney Ferreira

 

Post anterior

A Febre dos Cargos Comissionados

Últimas de Eleições 2026

Vá paraTopo

Não perca